FREGUESIA DE CAVERNÃES
Igreja Sra. da Vitória - Carragosela

Nossa Senhora da Vitória — uma devoção com quatro séculos em Cavernães
Há um lugar em Cavernães, na área da Carragosela, onde nasce uma ribeira de água abundante e o terreno se mantém verde mesmo no verão. Não foi por acaso que ali se construiu uma ermida. Desde cedo as pessoas reconheceram naquele sítio algo que merecia ser guardado.
A ermida de Nossa Senhora da Vitória foi erguida em 1630, obra de carpinteiros da região. Conta a tradição que nunca faltaram esmolas nem alimentos durante a sua construção — e que os próprios devotos interpretaram isso como sinal de que a Senhora velava pelo lugar desde o início.
O testemunho mais completo que chegou até nós está no quinto tomo do Santuário Mariano, impresso em Lisboa em 1716 e conservado na Biblioteca Pública de Viseu. É ali que ficou registada a fama que a imagem foi ganhando ao longo do século XVII: romeiros que vinham de longe, vasilhas de azeite que alegadamente nunca diminuíam, curas atribuídas à intercessão da Senhora. Destaca-se a figura de Jerónimo Francisco, um lavrador de grande simplicidade e fé, cuja história pessoal terá contribuído para espalhar o culto pela região.
Os sábados eram o dia de maior movimento na ermida — missa, limpeza da casa da Senhora, gente chegada de lugares distantes. A festa principal realizava-se no terceiro sábado de agosto, com sinos, celebração solene e a presença da Irmandade de Nossa Senhora da Vitória, que durante séculos zelou pelo espaço e pela continuidade da devoção.
A informação histórica foi transmitida pelo Reverendo Provisor do Bispado de Viseu, o doutor João Rodrigues Leitão, e pelo seu irmão, Arcediago de S. Pedro de France — fontes de autoridade que deram consistência ao relato preservado no Santuário Mariano.
Quatro séculos depois, a ermida continua a ser parte da identidade de Cavernães. Não apenas como monumento ou curiosidade histórica, mas como lugar onde a memória da freguesia e a fé das pessoas se encontram.
Fonte: Santuário Mariano, Tomo V, Lisboa, 1716 (Biblioteca Pública de Viseu)